Nós, homens livres e conscientes de nosso papel na sociedade, observadores do belo, cantadores de coisas, contadores de letras e sonhos. Nós, os poetas que morreram na carne, mas que nunca morrerão na alma grande que possuem e principalmente nós, os que hoje ainda persistem em andar por aí a dizer versos a amada, a cantar o patriotismo, a instigar infinitivamente a sensibilidade no século da materialidade repulsiva e do individualismo capitalista. Salve esses corações corajosos.
Nós, pois falo por todos que sofrem a indiosincrasia desumana do preconceito, da esteriotipagem, da exclusão, da rejeição e de toda à sorte de pelejas que só insistem em existir por que existe uma maioria ignorante que desconhece o sentido de um verso.
Aos brucutus gananciosos e miseráveis que passam a vida juntando dinheiro e desgraça . Aos governantes insidiosos e cegos por conveniência. Aos pobres de saber, escravos de si mesmos e aos demais que, coitados, desconhecem Drummond ou Piva.
Atenção!!!
Nós, banhados na razão da beleza e apoiados nos liames da harmonia coletiva, resolvemos materializar nossa indignação diante do opressor. Aqui, nossos versos vão romper o estribo desses surdos que negam nossa presença e aqui, solo sagrado, pulsaremos nos corações dos que persistem na frieza diante da miserabilidade que os cerca dia após noite, indiferentes às sensações.
Cantaremos, é isso que faremos, esta é nossa arte. Pura e simplesmente cantaremos.
Aos amplificadores ambulantes de lixos fônicos, atordoadores do equilíbrio até. Isso a que chamam música não passa de barulho enjoativo.
Fora estupradores de ouvidos!!!
É por estarmos com cólicas cerebrais já e antes que as atitudes trespassem nossa sanidade decidimos agir, eis nosso canto.

DEIXE SEU RECADO

Tempo de paz
Auro

Olham pelos joelhos sentados
Esperança ainda os alimenta
Dentre os escombros o corpo
Encontrado vivo após noventa
Horas esmagado pelo sufoco.

Pai...
Reconhecem-no seus filhos
Os pequenos negros do Haiti
Reconhecem a calça de brim
A camisa suada nas axilas
O anel do mais alvo marfim
O relógio dourado, michelim
Presente d'um soldado nosso
O 'cebolão' da 25 de março
Vendido como rolex no quilo
Nunca saíra daquele braço
Seu brilho destacou no cílio
De outro infante dos nossos
Que nunca mediria esforços
Para resgatar um cidadão
E dentre o peso dos destroços
Viu no pulso magro a refração
Atravessar pelo vão escombro
O último sinal que daria a mão
Àquele que lhe pôs nos ombros.

Salvo o pai dos filhos haitianos
Um dos poucos achados vivos
Sobre outros tantos nativos
E sobre nossos conterrâneos.