Tempo de paz
Auro
Esperança ainda os alimenta
Dentre os escombros o corpo
Encontrado vivo após noventa
Horas esmagado pelo sufoco.
Pai...
Reconhecem-no seus filhos
Os pequenos negros do Haiti
Reconhecem a calça de brim
A camisa suada nas axilas
O anel do mais alvo marfim
O relógio dourado, michelim
Presente d'um soldado nosso
O 'cebolão' da 25 de março
Vendido como rolex no quilo
Nunca saíra daquele braço
Seu brilho destacou no cílio
De outro infante dos nossos
Que nunca mediria esforços
Para resgatar um cidadão
E dentre o peso dos destroços
Viu no pulso magro a refração
Atravessar pelo vão escombro
O último sinal que daria a mão
Àquele que lhe pôs nos ombros.
Salvo o pai dos filhos haitianos
Um dos poucos achados vivos
Sobre outros tantos nativos
E sobre nossos conterrâneos.