Nós, homens livres e conscientes de nosso papel na sociedade, observadores do belo, cantadores de coisas, contadores de letras e sonhos. Nós, os poetas que morreram na carne, mas que nunca morrerão na alma grande que possuem e principalmente nós, os que hoje ainda persistem em andar por aí a dizer versos a amada, a cantar o patriotismo, a instigar infinitivamente a sensibilidade no século da materialidade repulsiva e do individualismo capitalista. Salve esses corações corajosos.
Nós, pois falo por todos que sofrem a indiosincrasia desumana do preconceito, da esteriotipagem, da exclusão, da rejeição e de toda à sorte de pelejas que só insistem em existir por que existe uma maioria ignorante que desconhece o sentido de um verso.
Aos brucutus gananciosos e miseráveis que passam a vida juntando dinheiro e desgraça . Aos governantes insidiosos e cegos por conveniência. Aos pobres de saber, escravos de si mesmos e aos demais que, coitados, desconhecem Drummond ou Piva.
Atenção!!!
Nós, banhados na razão da beleza e apoiados nos liames da harmonia coletiva, resolvemos materializar nossa indignação diante do opressor. Aqui, nossos versos vão romper o estribo desses surdos que negam nossa presença e aqui, solo sagrado, pulsaremos nos corações dos que persistem na frieza diante da miserabilidade que os cerca dia após noite, indiferentes às sensações.
Cantaremos, é isso que faremos, esta é nossa arte. Pura e simplesmente cantaremos.
Aos amplificadores ambulantes de lixos fônicos, atordoadores do equilíbrio até. Isso a que chamam música não passa de barulho enjoativo.
Fora estupradores de ouvidos!!!
É por estarmos com cólicas cerebrais já e antes que as atitudes trespassem nossa sanidade decidimos agir, eis nosso canto.

DEIXE SEU RECADO

O ASSINALADO

Tu és o Louco da imortal loucura,
o louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
faz que tu'alma suplicando gema
e rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Sousa

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Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça, ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas;
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
O infortúnio seria apenas este:
Tirar de mim o bem que tu me deste.

Shakespeare

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Poema de cinco faces iguais

Quando nasci
Nenhum anjo me disse nada
Minha mãe gemia num varal
E a Tia da tesoura enferrujada
Cortou meu umbigo.

Sou anti-destro naturalmente
Nunca fui bonito nem rico
Nem trabalhador dos porcos capitalistas
Anarquista? Chega de hipocrisias ilusórias.

Este que levanta o punho e grita
É o mesmo que lhe fita por entre as cabeças
Que ainda dizem excelência e decôro
E retornam extraordinariamente segundas ou quintas.
Mascates de ferocidades em geral
Entre tantos que são bons...Creio.

E o lume da vida demora delir
Enquanto peso minhas felicidades
Entre um verso e um baseado e Cartola.
Cabe em mim a alegria de viver
Apertado com a saudade da morte...

Fernando, camarada
como vai sua pessoa
como passa Lisboa
sua velha morada
ainda anda em tardes
náufrago de amigos
de estórias vencido
os outros covardes



Prote(x)to Poético































Sem o alvará, palco e iluminação de correria, cinco extensões plugadas, no gógó mesmo, foi 'REALIZADO' o Prote(x)to poético na praça da prefeitura. Árduo e lento é o processo de transformação cultural de uma sociedade já enterrada no lodo da ignorância, mas se existe uma expectativa para a mudança, esta está longe das críticas oriundas de estagnados; está longe, bem longe dos hipócritas sociais, aqueles que não se definem na sociedade; e muito mais distante dos que promovem o movimento contrário à ação coletiva, protelando diabolicamente nossos atos num absurdo burocrático desnecessário; longe também do pensamento individualista, egocentrista, umbiguista, capitalista que urde por aqui.
Ao Júnior, um recado: você já ouviu falar no princípio da eficiência? Este é um instituto que sendo obrigação de um ente público como você, faz parte do dia a dia dos meus atos com naturalidade e esta sua protelação injustificada no cumprimento do que se comprometera fez me perdê-lo. Em uma próxima, solicito de você a hombridade necessária a alguém que se ocupa do cargo de diretor de cultura. Sê célere que tempo não está a nosso favor, eu não sou do fênix e não tenho tempo nem 'saco' mais. Certo?
Se eu esperava mais? Não. Se estou satisfeito? Sim, pois a ação que se principiou no movimento começa a seguir sua trajetória rumo a uma consciência racional e solidária para com a nossa cultura.
Grato aos que ajudaram, compareceram e compreenderam a idéia da mudança necessária em nós para mudarmos o nosso meio e convivermos harmoniosamente com a cultura para que a vida tenha qualidade.
Desculpem me os que imaginavam um evento a' lá Murilo; nós, como dito, não temos lucros em espécie ou material, não somos partidários e somos pobres de dinheiro. No entanto nossa disposição é ativa e em prol da atitude de agir e não deixar que entraves burocráticos e repressores tanto do estado quanto da elite incomodada nos desanimem.
O próximo ato começa agora. Unamo-nos!

Auro Sérgio
Continuem cheirando cacos

Lâmpadas carbonizadas
E éter hemorrágico
Fritem gozem prostrem
Sobre o vazio frasco
Vomitem seus tímpanos
Dicotomia perdão e culpa
Aumentem a música
Enfrente... em frente
Escutem a voz bramindo
Continuem alimentando ratos
Esquentando pratos à noite
Espreitando vácuos da noite
As pupilas atentas
Transpirem as axilas
Em contínua sudorese
Maxilares inquietos
Narinas suor catarro
Contando carreiras com cartão
Cédula de cem como canudo
Continuamos cheirando cacos
Cavando covas
Rasas...
Auro Sérgio



Vivo no XXI

Vi dois terços do vinte
Vesti cuecas no vinte
Aos doze punheta no vinte
Virgem no vinte
Super Mário no vinte
Comi a Joice aos vinte no vinte
O segundo grau no vinte
A Daniela no vinte
O primeiro ano no vinte
O terceiro horário no vinte
O intervalo no vinte
O trabalho no vinte
Office-boy no vinte
Garçom no vinte
Entregador no vinte
Milico no vinte
Apaixonado no vinte
Alcoólatra no vinte
Pó...fumo... no vinte
Idiota boçal no vinte
Vil e medíocre no vinte
Vivo no XXI.

Auro Sérgio
Gênese poética

A poesia não se fez sozinha
Como a rosa foi semente
Cresceu botão pétala
Perfume pólen ramalhete
Estrofes e espinhos
Como o rio foi um risco
Como a terra foi um cisco
Na fissão plúmbea do ritmo
Fundiu se no infinito
Rumo as galáxias prolixas
Não aceitaram teorias
Nem teoremas
Nem compêndios matemáticos
Esquemas explicativos
Volumes didáticos
Nem meia vida ou termo
Nem nada dito prático
Para este processo
A poesia nasceu no nada
E de verso em reverso
Retorna a mesma estrada.

Auro Sérgio





Tempo de paz
Auro

Olham pelos joelhos sentados
Esperança ainda os alimenta
Dentre os escombros o corpo
Encontrado vivo após noventa
Horas esmagado pelo sufoco.

Pai...
Reconhecem-no seus filhos
Os pequenos negros do Haiti
Reconhecem a calça de brim
A camisa suada nas axilas
O anel do mais alvo marfim
O relógio dourado, michelim
Presente d'um soldado nosso
O 'cebolão' da 25 de março
Vendido como rolex no quilo
Nunca saíra daquele braço
Seu brilho destacou no cílio
De outro infante dos nossos
Que nunca mediria esforços
Para resgatar um cidadão
E dentre o peso dos destroços
Viu no pulso magro a refração
Atravessar pelo vão escombro
O último sinal que daria a mão
Àquele que lhe pôs nos ombros.

Salvo o pai dos filhos haitianos
Um dos poucos achados vivos
Sobre outros tantos nativos
E sobre nossos conterrâneos.





Elogio da síntese

CARLOS FELIPE MOISÉS


Fazer o elogio da síntese é fácil. (Difícil, sempre, é ser sintético.) Todos nós, que lidamos com poesia, seríamos mais felizes se os poemas que nos cercam privilegiassem o espírito de síntese, vale dizer se se limitassem ao indispensável. Não conheço um só poeta ou leitor que defendesse o contrário. Chegar a esse resultado, isto é, dispensar o dispensável, também é fácil – exceto, claro está, para o poeta prolixo, que passa ao largo da distinção, e para quem o esboço de receita, a seguir, será de pouca valia.

É uma receita elementar: escreva, passe para o papel tudo o que lhe vier à mente, sem se preocupar com método, técnica, estilo, gênero, modelo etc. Nenhuma inibição, nenhuma barreira, nada de autopoliciamento. Escreva tudo. Em seguida, comece por eliminar os sinais de pontuação, que não expressam nada, apenas balizam o itinerário – caso você tenha um só. Como convém ter mais de um, melhor não pontuar. Depois corte os artigos, os pronomes, as preposições e as conjunções, que não chegam a ser palavras propriamente ditas, só servem para conectar, de forma explícita, umas às outras, as palavras que de fato contam. Os espaços em branco e os cortes, por exemplo (sintaxe orgânica), constituem uma maneira mais interessante de se obter o mesmo efeito. Em seguida desfaça-se não de todos (é preciso não radicalizar), mas do maior número possível de adjetivos e advérbios – palavras insidiosas, quase sempre subordinadas, respectivamente, aos substantivos e aos verbos, mas que (como dizem os gestores da qualidade total) não agregam valor nem a estes nem àqueles. Por fim, converta o maior número possível de modos, tempos e flexões verbais em infinitivo impessoal. Se o que sobrou não fizer sentido, verifique se a reposição de uma ou outra (só uma ou outra) das palavras eliminadas resolve. Se não resolver, jogue tudo fora.

Exemplo: caso lhe ocorra iniciar um poema com um verso que diga “De manhã bem cedinho, todos os dias, ao acordar, eu canto”, talvez seja melhor ficar só com “manhã” e “cantar” – não lado a lado, formando uma falsa frase, mas uma palavra aqui, outra ali. Recomece o poema, deste ponto. Caso isto não lhe agrade, e você prefira continuar como começou, releia o parágrafo anterior.

No primeiro caso você estará sendo prolixo; no segundo, sintético. Síntese é isto: o antídoto mais seguro contra a prolixidade. Mas repare que não é uma questão de estilo ou de forma, não se trata de uma técnica. É uma questão de sentido. O poema concebido sob a égide da síntese registra apenas os núcleos essenciais, não perde tempo com subentendidos, atalhos, implicações, repetições, ornamentos etc. Que são “núcleos essenciais”? Cada qual sabe dos seus. (Se você está em dúvida, melhor não escrever.) O poema prolixo se compraz na proliferação de irrelevâncias, à procura dos tais núcleos – no caso, vagos e difusos, isto é, falsamente “profundos”, ou inexistentes. Contra o vago e difuso, a solução é a clareza, que, longe de ser atributo exclusivo de matemáticos e filósofos, também interessa a poetas imbuídos do espírito de síntese. Em vez de clareza, você pode pensar em precisão, como faz T.S. Eliot: “Falamos como se o pensamento fosse preciso e a emoção, vaga. Na realidade, existe emoção precisa, assim como existe emoção vaga. [...] Toda emoção precisa segue no rumo de uma formulação intelectual”.

Desde que não sejam confundidas com “lógica”, a clareza e a precisão correspondem à palavra justa. Se você não a encontrou, não convém sair atrás dela, no papel. Limite-se a observar com mais atenção o que você tem a dizer, a não ser que lhe agrade brincar de palavra-puxa-palavra. Mas, neste caso, quando o milagre do contágio produzir a aparição daquela que você vinha buscando, elimine as anteriores, que só serviram de exercício preparatório. A chave é não se entusiasmar, para não se distrair.

Se não é uma questão de estilo, síntese vem a ser sinônimo de concisão, condensação, concentração de sentido. Como tal, também não oferece dificuldade: basta prestar atenção ao que você tem em mente. Só não é fácil (ao contrário, é uma impossibilidade) para o poeta prolixo, que não se dá conta da sua prolixidade, seja porque considera de suma importância todas as palavras que for capaz de colocar no papel – e isso não lhe permite distinguir o indispensável do supérfluo; seja porque seus núcleos essenciais, caso existam, ainda não chegaram ao nível da consciência e da clareza. A prolixidade não é fruto da deliberação (ninguém é prolixo de propósito), mas da inadvertência, e, no geral, pelo menos em poesia, radica na hipertrofia do ego, isto é, na presença de uma voz balbuciante, a buscar, sem rumo, a auto-identidade perdida ou ainda não encontrada. O espírito de síntese é uma impossibilidade, também, para o leitor distraído, que não atina com os momentos fortes do poema à sua frente, caso estes existam, e deixa-se conduzir pela quase sempre aliciante cantilena do poeta prolixo e, a exemplo deste último, confunde devaneio com poesia.

Poesia, antes de ser devaneio, é imaginação ou ficção. Todos, menos o poeta prolixo, o sabem, pelo menos desde que Fernando Pessoa o definiu: “O poeta é um fingidor”. Fingir, fingidor e fingimento provêm do latim: fingere. Mas ficção e fictício também, e do mesmo verbo: fingo, is, finxi, fictum, fingere. Poesia é imaginação concentrada, sem tempo a perder com os devaneios e divagações autocomplacentes do poeta à procura do próprio Eu. Ou do poeta incapaz de imaginar algo interessante a dizer – interessante, bem entendido, para nós, seus leitores, já que, para ele, tudo o que lhe venha à mente será interessantíssimo.

Como se vê, privilegiar a síntese resulta em elogiar o leitor. É só reparar que, além de se contrapor à prolixidade, esta se contrapõe também à análise. Mas aí o caso é outro: as incursões analíticas não podem ser simplesmente eliminadas, como eliminamos as superfluidades, segundo a receita da abertura. O poema vazado em estilo analítico é aquele em que aos núcleos essenciais vão-se agregando, naturalmente (se a análise for de boa qualidade), os corolários, as inferências, os desdobramentos e por aí vai. Vale dizer tudo exposto, explicado e justificado pelo poeta, como se se tratasse de uma dissertação acadêmica, reduzindo o leitor à condição da mais deplorável passividade. Já o poema sintético oferece ao leitor a possibilidade de intervir. (Lembre-se: enquanto não migrar para a consciência do leitor, o poema ainda não existe.)

O leitor distraído nem se dá conta de que isso é possível; o pretensioso acredita que pode ler, no poema à sua frente, o que bem entenda, multiplicando ao infinito (para satisfação dos desconstrucionistas) os núcleos essenciais revelados/escondidos pelo poeta, mas sem dar por eles. Já o leitor atento sabe que sua intervenção é bem-vinda e necessária, mas que não lhe é facultado enxergar, no poema lido, os infinitos poemas que quiser, e, sim, tão somente aqueles três ou quatro (bem, pode ser um pouco mais, um pouco menos), latentes nos versos efetivamente escritos pelo poeta. Se a liberdade de leitura fosse infinita, para que precisaríamos do poema? Só para nos inspirar, enquanto leitores? Ou só para ensejar que Fernando Pessoa acrescentasse, não sem mágoa, à definição famosa, o desdobramento quase sempre esquecido: “E os que lêem o que escreve, / Na dor lida sentem bem / Não as duas que ele teve / Mas só a que eles não têm”?

A receita que recomenda cortar quase tudo, como vimos, lida com a síntese que só aparece na linha de chegada, mas é preciso cogitar também da síntese que já se instala no ponto de partida, como dimensão integrante do processo de concepção: cortar/condensar o pensamento ou a intenção, em vez de apenas eliminar, depois, os excessos escritos. Aí já pode ser tarde: a síntese da linha de chegada corre sempre o risco de ser confundida com brevidade, isto é, com a extensão, como se todo poema curto fosse necessariamente sintético ou conciso. A síntese do ponto de partida garante a concisão, seja o resultado (rimemos) breve ou não.

Síntese não é uma questão de tamanho, mas de densidade ou concentração ideativa. A entronização da brevidade, como alvo a ser buscado em si e por si, resulta em maneirismo: dois ou três versos, meia dúzia de palavras e pronto!, aí temos o poeminha da moda minimalista – aliás, quase sempre prolixo, não obstante diminuto. No outro extremo, há poemas imensos, exemplarmente concisos, dos quais só algum celerado sugeriria eliminar, por supérfluo, um verso sequer. Você já reparou na “Tabacaria”, esse despropósito de 167 versos? Que tal cortar, por exemplo, aquelas passagens que já estão entre parênteses, como a que começa “Come chocolates, pequena, come chocolates”?

Apesar disso, não sejamos radicais: o elogio da síntese pode abrigar, também, uma discreta e secundária homenagem à brevidade. O poeta que se imponha a disciplina de escrever pouco (os quatorze versos de um soneto, as dezessete sílabas do haicai, uma quadrinha, um dístico), desde que não burocratize nem torne mecânico o intento, desfrutará de vantagens consideráveis: estará mais próximo do espírito de síntese; reduzirá os riscos da prolixidade; e, por fim, resistirá com brio à vertigem da página em branco, à atração da abundância desmedida e à sedução do infinito. Uma questão interessante, sugerida neste parágrafo e nos dois anteriores, é a que diz respeito ao verdadeiro teor do poema longo, que Edgar Allan Poe acreditava não passar de uma sucessão de poemas curtos. O interesse advém da larga e frutuosa fortuna do poema breve, na lírica moderna, graças à acolhida que Charles Baudelaire e Ezra Pound deram à idéia premonitória do autor de The poetic principle.

Cumpre estar atento ao fato de que o bom poema se concentra em torno de um ou outro achado feliz. Por isso, há que ser implacável, também, com o caso, a seu modo benigno, da prolixidade parcial, seja a do tipo ainda-não, seja a do tipo já-não-mais. Se, depois de páginas e páginas de decassílabos muito duros, ou muito frouxos, o poeta afinal consegue um verso que diz “Tanto era bela no seu rosto a morte”, por que não se livrar de toda a versalhada anterior, que só serviu de andaime e ainda não era poesia propriamente dita? Se tivesse sido esta a opção, O Uraguai não teria cinco caudalosos cantos, mas quem sabe um só. Basílio da Gama teria sido ignorado pelos contemporâneos, mas figuraria hoje, ao lado de Sousândrade e Kilkerry, como um dos pioneiros. Do lado de lá, se certo poema famoso se limitasse à primeira estrofe (que principia “Eras na vida a pomba predileta”), seguida talvez de não mais que meia dúzia dos 168 versos restantes, Fagundes Varela não precisaria ter diluído, ao longo de uma dezena de imensas estrofes, onde a poesia já não mais está presente, a emoção densa, precisa e suficiente dos doze versos iniciais. Nos dois casos, os ortodoxos da contextualização farão severos reparos. Diga apenas que nenhum bom leitor teria dificuldade em contextualizar. E acrescente que para o mau leitor não há bons e maus poemas: é tudo igual. E, neste caso, contextualizar ou não contextualizar é irrelevante.

Em matéria de prolixidade, enfim, toda condescendência é excessiva. E, para rematar, nada melhor que um exemplo de boa síntese, extraído de uma das odes horacianas de Ricardo Reis – exemplo especial, pois, além de conciso e breve, traz também uma referência indireta à possível matriz epicúrea daquela síntese que se consubstancia já no ponto de partida:

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.

CARLOS FELIPE MOISÉS é poeta, crítico literário e tradutor. Foi professor da USP e da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Publicou Círculo imperfeito (1978), O desconcerto do mundo (ensaios, 2001), Alta traição (poemas traduzidos, 2005), entre muitos outros. Recebeu em 1989, já pela segunda vez, o prêmio de poesia da Associação Paulista dos Críticos de Arte. O texto aqui publicado foi apresentado no I Fórum das Letras, Ouro Preto, em novembro de 2005, em mesa-redonda de mesmo tema, proposto por Alice Ruiz e Rodolfo Guttilla.

PROCURA DA POESIA
Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


NOTA SOCIAL
Carlos Drummond de Andrade

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.
O poeta está melancólico.


Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

SOU UM DOS 999.999 POETAS DO PAÍS
Affonso Romano de Sant'Anna

Fragmento 1

INTRODUÇÃO SÓCIO-INDIVIDUAL DO TEMA

Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.

(- Estes são dados sociais
de que não quero falar, embora
tenha aprendido em manuais
que o escritor deve tomar o seu lugar na História
e o seu cotidiano alterar.)

Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela - a força de áries na azáfama da casa
......a decisão do imigrante que veio se plantar
ele - capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
......lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
......domingueira.

(- Estes são sinais particulares
......que não quero remarcar, embora
......tenha aprendido em manuais
......que o que distingüe a escrita do homem
......são seus traços pessoais que ninguém pode
......imitar.)

Fragmento 2

DESENVOLVIMENTO HÁBIL E CONTÁBIL DO (P)R(O)BL(EMA)

Sendo um dos 999.999 poetas do país
desses sou um dos 888.888
que tiveram Mário, Bandeira, Drummond,
Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius como mestres
e pelas noites interioranas abriam suas obras
lendo e reescrevendo os versos deles nos meus versos
com deslumbrada afeição.

Desses sou um dos 777.777 poetas
que se ampliaram ao descobrir Neruda, Pessoa,
Petrarca, Eliot, Rilke, Whitman, Ronsard e Villon
em tradução ou não
e sem qualquer orientação iam curtindo
um bando de poetas menores/piores
que para mim foram maiores
pois me alimentavam com a in-possível poesia
e a derramada emoção.

Desses sou um dos 666.666 poetas
que fundando revistinhas e grupelhos aspiravam
(miudamente)
à glória erótica & literária
e misturando madrugadas, festas, citações, sonhos
....... de escritor maldito e o mito das gerações
depois da espreita aos suplementos
batem à porta do poeta nacional para entregar
poemas
(com a alma na mão)
esperando louvor e afeição.

Desses sou um dos 555.555
que um dia foram o melhor poeta de sua cidade
o melhor poeta de seu estado
dos melhores poetas jovens do país
e quando já se iam laureando aqui e ali em plena arcádia surpreenderam-se nauseados
e cobrindo-se de cinza retiraram-se para o deserto
a refazer a letra do silêncio
e o som da solidão.

Desses sou um dos 444.444 poetas
que depois da torrente de versos adolescentes e noturnos
se estuporaram per/vertidos nas vanguardas
e por mais de 20 anos não falamos de outra coisa
senão da morte do verso e da palavra e da vida do sinal
acreditando que a poesia tendia para o visual
e que no séc. XXI etc. e etc. e tal.

Desses sou um dos 333.333 poetas
que depois de tanto rigor, ardor, odor, horror
partiram para a impureza (consciente) das formas
podendo ou não rimar em ar e ão
procurando o avesso do aprendido
o contrário do ensinado
interessado não apenas em calar, mas em falar
não apenas em pensar, mas em sentir
não apenas em ver, mas contemplar
fugindo do falso novo como o diabo da cruz
porque nada há de mais pobre que o novo ovo de ouro
gerado por falsas galinhas prata.

Desses sou um dos 222.222 poetas
que penosamente descobriram que uma coisa
é fazer um verso, um poema ou mais
e receber os elogios médio-medianos dos amigos
e outra, bem outra, é ser poeta
e construir o projeto de uma obra
em que vida & texto se articulem
...... letra & sangue se misturem
.....espaço & tempo se revelem
e que nesta matéria revém o dito bíblico
- muitos os chamados, poucos os escolhidos.

Desses sou um dos 111.111 professores
universitários ou não
que antes de tudo eram poetas-patetas-estetas-profetas
e que depois de ver e viver da obra alheia
estupefactos
descobrem que só poderiam/deveriam
sobreviver com a própria
..... que escondem e renegam
por pudor
........... recalque
................... e medo.

Sou um dos 999 poetas do país
que
sub/traídos dos 999.999
serão sempre 999 (anônimos) poetas
expulsos sistematicamente da República por Platão
que um dia pensaram em mudar a História com
...dois versos pena & espada
(o que deu certo ao tempo de Camões)
e que escrevendo páginas e páginas não mudaram nada
senão de tinta e de endereço.
Mas foi dessa inspeção ao nada que aprenderam
que na poesia o nada se perde
... o nada se cria
... e o nada se transforma.


CARTA
Mario Quintana

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

Discurso

E aqui estou, cantando.


Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.


Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.


Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.


Pois aqui estou, cantando.


Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?


Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Cecília Meireles

Simplesmente poesia simplesmente beleza...
Percebi que sou uma farsa. Eu era bom; consegui enganar me até ontem.
Auro Sérgio
"Faz muito tempo que não choro, estou precisando de um coro daqueles viu mãe."
Auro Sérgio
"Criar o Universo foi fácil até, queria vê-lo morando aqui."
Auro Sérgio
"As descobertas quotidianas não são inéditas; são quotidianas."
Auro Sérgio
Encontraste

Tenho medo de ficar pobre
Tenho medo de ficar preto
Socorram-me!
Tenho medo de passar fome
Tenho medo de passar frio
Socorram-me!
Tenho medo da net cair
Tenho medo de assalto
Socorram me!
Tenho medo do asfalto
Tenho medo de você
Socorram-me

Auro Sérgio
"Um feixo fino de água
Um filete eu diria
De nascente limpa, doce
Foi-se em covardia
Suas algas marinhas
Morreram, se havia...
Seus cágados coitados
Foram encimentados
No concreto sólido
Da indiferença
De nosso ser insólito
Ele fedia sem dó
Tratavam-no fossa
Insetos atraía
Mas não há mal pior
Que a covardia
De misturar o pó
Em sua água fria
E calcificá-lo.
Não eram tartarugas
Mas clamavam por ajuda
De quem fosse, IBAMA
Ou qualquer ambiente
Que lhe dessem meios
Para estarem ainda vivos
Eram cágados nativos
Irmãos de nós mesmos
Não eram pedras no caminho
Dos nossos desejos.

Hoje por ali caminham
Fazem seus “cooper”
Especulam e embriagam
No lodo de seus anseios
Os veios por onde corre
Água limpa agora podre
O concreto desalmado
Como podem acimentá-lo
Concordam com o fim
Permanecem calados
Ao verem nosso Corguim
Com os dias contados
Tumultos ambientais
Consciência de preservação
Não, esses animais
Nem deram atenção
Depois sou eu o louco
Desvairado, e eles não.
São homens sábios... "
Auro Sérgio
"Tenho um blog
Onde escrevo
Poesias
Pra ninguém.

Viver dos outros
É minha maior
Lástima
Também."

Auro Sergio


"Anuncia teus enterros
Em carros ambulantes
Ah! Unaí desperta..."
Auro Sérgio

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

Vendem se poemas


Todo mundo agora é poeta
Estão todos por aí líricos
A rimar a flor com o amor
Depois de alguns desamores...
A liberdade democrática
Estou sem termo pra definir
Mas esta liberdade tende
Tende a destruir a poética
Qualquer um faz um soneto
Mal feito, de passagem
Que cante o inatingível belo
Que alcance os vocábulos doces
Forçados e sem brilho algum
Alguns farsantes das falácias
Que aprenderam a escansão
Nos manuais de poesia e redação
Geralmente poetas são feios
Poemas não
São cultos, não "perdem tempo"
Amam, realmente amaram...
Qualquer um não sabe amar
Qualquer um não sabe amar
Todo mundo não pode amar
Existe ainda a poesia
Afirmo quase a perguntar
Hoje com tudo sem valor
O poeta e o seu fingido amor
Sem sentimento verdadeiro
Compra, pois, com seu dinheiro
Os lauréis de cantador
E faz trovas a revelia
E se confunde nos falsos versos
Um dia está enamorado
Noutro já se oprime sem espaço
É comunista hoje e amanhã
Um judeu que mora em Amsterdã
E assim oscilando entre o conveniente
Vão deitando palavras ao chão
Sem sentimento sublime são
Um estorvo à poesia do menestrel...
Se foi só um amor que se foi e um versinho
Guarde no cantinho
Guardadinho...
Não, você não é o Vinícius de Morais
Demora pra ser poeta se não se nasce um
Guarde os seus poeminhas, são legais
Nada mais, pois você é qualquer um
Que vê mas não sente.
Auro Sergio