Nós, homens livres e conscientes de nosso papel na sociedade, observadores do belo, cantadores de coisas, contadores de letras e sonhos. Nós, os poetas que morreram na carne, mas que nunca morrerão na alma grande que possuem e principalmente nós, os que hoje ainda persistem em andar por aí a dizer versos a amada, a cantar o patriotismo, a instigar infinitivamente a sensibilidade no século da materialidade repulsiva e do individualismo capitalista. Salve esses corações corajosos.
Nós, pois falo por todos que sofrem a indiosincrasia desumana do preconceito, da esteriotipagem, da exclusão, da rejeição e de toda à sorte de pelejas que só insistem em existir por que existe uma maioria ignorante que desconhece o sentido de um verso.
Aos brucutus gananciosos e miseráveis que passam a vida juntando dinheiro e desgraça . Aos governantes insidiosos e cegos por conveniência. Aos pobres de saber, escravos de si mesmos e aos demais que, coitados, desconhecem Drummond ou Piva.
Atenção!!!
Nós, banhados na razão da beleza e apoiados nos liames da harmonia coletiva, resolvemos materializar nossa indignação diante do opressor. Aqui, nossos versos vão romper o estribo desses surdos que negam nossa presença e aqui, solo sagrado, pulsaremos nos corações dos que persistem na frieza diante da miserabilidade que os cerca dia após noite, indiferentes às sensações.
Cantaremos, é isso que faremos, esta é nossa arte. Pura e simplesmente cantaremos.
Aos amplificadores ambulantes de lixos fônicos, atordoadores do equilíbrio até. Isso a que chamam música não passa de barulho enjoativo.
Fora estupradores de ouvidos!!!
É por estarmos com cólicas cerebrais já e antes que as atitudes trespassem nossa sanidade decidimos agir, eis nosso canto.

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Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

Discurso

E aqui estou, cantando.


Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.


Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.


Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.


Pois aqui estou, cantando.


Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?


Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Cecília Meireles